segunda-feira, 28 de maio de 2018

O pedaço do papel era uma lista de compras. Era um desejo também.Devia ter sido uma receita, uma alegria compartilhada, um amor. Ele continua ali, itens ordenados, minha letra feia. Mas não fomos ao supermercado. Não teve comida, nem feliz, nem aniversário. Teve avalanche. Sobrou nada. 

quinta-feira, 24 de maio de 2018

O cérebro ativo como vento em alto mar. Correndo por tudo, veloz. Vejo o lado de fora, me importo. Tenho tantos receios. Mas sei que as pernas agora estão mais firmes e mereço isso, portanto não me sinto preocupada em desviar o olhar. Sinto calada a dor dos demais em mim, mas não me sinto obrigada a me reduzir a isso. Culpa já não sinto mais. Misto de se importar e não estar nem ai. Sei que não sou forte o bastante, sozinha. é preciso crescer, fundar raízes e avançar. cultivar e agredir.

quarta-feira, 18 de abril de 2018

Todos tem cabelos lindos, mesmo desgrenhados. E estão incrivelmente bem vestidos. A pele é indiscutivelmente viçosa e as crianças, todas, espertas, inteligentes, agitadas na medida certa. A grama verde e a tarde linda, um céu azul bonito no pôr-do-sol.

Como é insuportável.



segunda-feira, 26 de março de 2018

Há calor e amargura. Febre que não passa.
Percurso de quem viaja com um passaporte emprestado, ilegítimo, ocupando sempre um lugar que, indevido, deve ser conquistado.
Tanto frio. 

segunda-feira, 5 de março de 2018

Aos pouquinhos arredo para o lado.
Aos pouquinhos não faz diferença.
Aos pouquinhos, a gente se distraí. Tanta coisa pra fazer, pra pensar.
Daqui a pouquinho,
parece que nem mesmo foi.


quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

Leio agora: de qualquer modo o mundo continua.

Sim, e sem você, sem mim. Sem os palhaços, sem o carnaval. Sem as fotografias bonitas das mesmas pessoas sempre.  Respiro fundo.

Agora todos, mesmo os lindos, querem meu voto. Vou vomitar.

Caminhei muito hoje. Quase cruzei a cidade a pé.

E não era em bando. Não tinha tambores. Porque vivemos perdidos na cidade. Vivemos sozinhos na cidade.
Lutamos apenas para não morrer.

O resto é como uma música de Django, que embala mas não promete nada.

O que continua?

Não há nada a esperar, somente o pior.

terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

Pouca satisfação a vida oferece.
A maioria delas, em modo negativo: não ceder, não cair, não desanimar, não se quebrar.
Talvez por isso, a cada contemporâneo, a expressão em forma de "auto-ajuda" seja tão bem-vinda, tão aceita. Na dura conjugação entre possível e necessário, precisamos de apoios.
Mas, por que diabos a expressão desse meu contemporâneo tem que ser tão óbvia, tão esparramada por uma superfície, preenchendo todos os seus buracos, todos os seus vazios?

que é preciso cura, tenho certeza. Que ela não seja impossível, isso dói.

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

Com a visão mais clara possível - aquela que só POSSÍVEL pela rigidez das formas e na mesma medida, pela constante dor - , retorno aos Ks da (minha) vida. Kant, certo. Mas também Kierkegaard. Ambos sobre a imaginação: agente e poder da infinitização. Diferentes. Em muito casos, oponentes. E por isso mesmo, tão próximos.

O desespero que se perde no infinito é, SEM DÚVIDA, imaginário.

Mais ao longe, mais um K- kafka:

"Assim eu vacilo, portanto,voo incessantemente ao topo da montanha, mas praticamente não consigo me deter um momento sequer lá em  cima. Outros também vacilam, mas em regiões baixas, com formas maiores; se elas ameaçam cair, então o parente, que vai ao seu lado para este fim, as detém. Eu, no entanto, vacilo la em cima, infelizmente, isto não é a morte, mas os tormentos eternos de morrer"

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

Tudo parado. Apenas música e alguma poesia. E a bagunça dos gatos.
A cabeça dói de formas inéditas. O estômago permanentemente enjoado, Tudo girando em torno de um orgão, que funciona como dispositivo e os artefatos que dele derivam.
Nem é pura ansiedade. Nem puro medo. Uma mistura dos dois.
A fragilidade do corpo, a petulância do acaso, o peso da LEI.

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

Uma semana e meia com as vistas embaçadas. Na verdade, apenas mais embaçada do que o que foi o normal esses últimos dez anos. Isso é, vejo o mundo enviesado por anos e agora, junto da revelação de uma topografia incuravelmente irregular,  me prometem, por meio de outra prótese, uma nova visão ,que chega em alguns dias.
 O que pode ser mais terrível: ver os outros, ver a mim mesmo?
Ver que nada foi visto?