sábado, 18 de abril de 2020

O mundo das emoções exige uma racionalidade modulada a partir de uma equação difícil entre experiência e plasticidade. Por exemplo: por definição, tédio e ansiedade não deveriam se justapor, nem se conjugar: deveriam se comportar como óleo e água.
Acontece bem o oposto.
Há circunstâncias em que é possível estar absolutamente entediado e enlouquecidamente ansioso. E não é como uma elegante despreocupação que essa amalgama bizarra se instala. É como se um jovem caçador de raposas encontrasse um rinoceronte.

segunda-feira, 13 de abril de 2020

corpo febril, cabeça-dor infinita, ventre cheio de ar. Obscuridade do instante imediato expandida para trás e para frente: que futuro importa a partir desse presente?
 Todos os ruídos são premunições, são sonhos
são desgraças.

segunda-feira, 6 de abril de 2020

vento quase frio entra pela janela e varre os pés como se fosse uma onda do mar... Por um momento, ainda adormecido, não se dava conta. Naquele momento, ele não sabia ou não se lembrava. 
Espreguiçou ainda.
Trinta segundos depois lembrou-se: a cabeça aberta, o pés feridos, o corpo dolorido, tudo era um sonho. Na realidade, e esse termo desde sempre confuso para quem se propõe a pensá-lo . havia meses que não era possível sair do pequeno conjugado. Toda sua vida era vivida dentro de trinta e oito metros quadrados. 

sábado, 21 de março de 2020

Então, o evento. Essa coisa tão perseguida pel
os historiadores, tão fugidia. De repente, você está dentro de um evento mundial. Quase sempre isso significa algo catastrófico e não é diferente nesse caso.
O evento, esse evento: muitos dias em minha mesa, a vida sem eira nem beira, olhando para as montanhas da janela do meu escritório, uma linda vista, com um sol que lança sobre os prédios e sobre as árvores um dourado quase sem presente. Ouço Beethoven. Leio. Converso com os amigos para compartilhar a impotência, a inutilidade e mesmo a irrelevância. O que vai acontecer conosco?
Muito pouco. E tudo já esta acontecendo. Esse é o evento. 

tomo um chá inglês. FAz pouco tempo que descobri que, realmente, vale a pena pagar por um chá inglês. 

Quase não consigo disfarçar o alívio de estar longe das aulas. Penso em escrever. Cuido do corpo. Fiz as unhas, vermelhas. Comprei água mineral, vinho, cerveja, ração para os gatos. 

Agora é esperar: 

a morte dos outros. A morte é única realidade. O evento sem ela, é uma ficção. A morte dará o peso e o valor do evento: A morte é a medida de sua importância. 

sábado, 14 de março de 2020

Quase morro quando me explicam um poema. Mas daí penso que não é possível fazer carinho nos olhos.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2020

O que eu mais gosto de viajar é o silêncio. Muito silêncio. Mútuo silêncio.
Sempre tive antipatia de Penélope. Sempre preferi Circe. Não gosto de tecituras. Sou mais de feitiços que não dão certo.
Eu gosto de poesia e não suporto poetas, especialmente os vivos. é realmente uma pena que eles precisem viver em algum momento para escrever.
O que eu mais gosto na virtude são suas falhas  e por isso mesmo todos os virtuosos são insuportáveis.
Não aguento mais quem ainda se acha no direito de se encantar pelo ato de nomear.

segunda-feira, 11 de novembro de 2019

Não sou eu, não escrevo. Não limpo o chão em que piso, o banheiro que uso. Não lavo minhas roupas e não saio de casa para comprar minha comida.
Cozinho, por vaidade.
Por necessidade, para ganhar minhas migalhas,  fecho os olhos, o coração, travo meu pescoço e coluna, os músculos do trapézio, e abro livros que alimentam a ilusão de que pessoas possam existir. Elas não podem, ninguém pode existir: apenas esse barulho da escavadeira do outro lado da avenida que tem nome de uma santa e, claro, não salva nem a si mesma, pode existir.
E se eu continuo olhando para as coisas belas, é apenas por capricho. Sinto tanta repugnância e nojo dos que se dedicam a adiar o fim do mundo que, acho, devo mesmo ir para o inferno, de novo.

segunda-feira, 9 de setembro de 2019

NA Mesopotâmia, não tinha fascismo. A violência tinha outras caras, outras palavras e gestos. A fome também era diferente, o deus gostava de silêncio e precisava de nós.

Agora, e já faz um tempo, é preciso encontrar o fio da meada em que respeitar é suspeitar: alegoria, senhor WB ?

Revisito as profundezas e só encontro uma raiva pastosa. é como um enfermo que voltei a essa cidade, e é como doente terminal que sei que não há cura. Não é pelos outros, mas por mim, essa certeza de que tudo está abaixo e doente e vazio. A falta de compaixão vence a compaixão - porque em mim ela só existe abstratamente.

Deus não precisa de ninguém e nós fomos feitos sua imagem e semelhança.

sábado, 3 de agosto de 2019

beleza aracnídea, envelheço o hábito irônico diante das calamidades, são tantas, e aproveito ainda um tipo viril configurado num feminino corpo assustador pelas formas e cólera.  Deixo os Orenocos dos corações humanos e subo rumo aos Andes, Bolívia, para habitar agora na casa que se chama Circe, que sou.

sexta-feira, 2 de agosto de 2019

achei que tinha me perdido, eu, meu caderno que sou eu. Logo nesse momento em que preciso tanto de mim, que não tenho paciência para nada além de mim ( não é que seja exatamente uma exceção, normalmente só tenho tempo e paciência para mim). Não é egoísmo é autocentramento.
Mas, de qualquer forma, nesse instante precisava muito de mim, aqui. E não estava conseguindo encontrar. Agora estou em minha casa, resistente como uma fortaleza.