sábado, 22 de agosto de 2015

O que desespera não é a inexistência de um porto seguro, do local tributável e legalizado, da certeza do dia 30. Tampouco é a condição precária, o vínculo leve, a falta de móveis, e de cachorros. Essas faltas e dificuldades são índices e entendê-los como algo além disso seria uma grosseria ou uma ilusão.

(A possibilidade de sucumbir a elas - outro nome da felicidade -, é qualquer coisa que me foi tirada.)

O que tira o sono todos os dias é o excesso de vontades que se materializa como seu exato oposto: a incapacidade de colocar a minha vontade como gerente da minha própria vida. é querer tanto e tantas coisas, fazer tudo por elas e ao mesmo tempo não extrair daí nenhuma satisfação a não ser ter tudo e não ter nada.
E isso não chega a satisfazer. sem dúvida é um gozo, mas também é uma deriva, um desterro.

Sem acender a luz, leio Pascal,  que me diz, com a voz trêmula, que a miséria faz par com a grandeza e  se projetam no claro-escuro do mundo, lá mesmo onde a vontade não tem e nunca teve nenhum controle.




quinta-feira, 20 de agosto de 2015

tarefas

fazer as perguntas cortantes
assumir as verdades amargas
resignar-se ao pouco, ao menor.
aceitar não ter valor, não ser mais que um estrago, uma decepção.

agosto é o mês da poda.

terça-feira, 18 de agosto de 2015

Fardo
ou prato do dia:
vida impura e mutilada alternada a desafogos fragmentários e intermitentes.
Enjoy!

domingo, 19 de julho de 2015

em mim, esterco. 
podridão. 
dialética. 

quarta-feira, 8 de julho de 2015

Cabeça em Belo Horizonte, coração em Paris, pés no Rio de Janeiro.
Coração no Rio de Janeiro, pés em Belo Horizonte, Cabeça em Paris.
um pé em Paris, outro em Belo horizonte, cabeça e coração no Rio de Janeiro.
no fundo, não importa a cidade:
pés na cabeça e o coração na boca.

Apostar em tudo não acaba por equivaler a não saber querer nada?

Não ser senão em deriva.

sexta-feira, 3 de julho de 2015

cheguei do nada, ontem. sem nada, nem perguntas,nem sonhos, nem promessas. Bolsos vazios, cigarro na boca, cabeça cheia, olhos ficcionais. Coração inflamado, pés doídos. Unhas feitas. Não tenho nada, nem mesmo a passagem. Sem nome, sem família. Sem posse, sem terras. Horizonte nu, nó na garganta.
MAS
deito-me e  faço (de) você o umbigo do diverso.


sábado, 13 de junho de 2015

Ninguém vê. Entravada numa rua que nunca desiste de fugir da cidade. Porque  liberdade sempre foi. Nunca é.  Aqueles dois cubinhos de açúcar que derretem no café. certeza de partir. gozo da não definição, do transitório. do passageiro. alegria leve. E me agarro na brisa pois os ventos fortes ainda virão.

quarta-feira, 3 de junho de 2015

Das vezes em que fui deliberadamente cruel, gosto de pensar que não tive escolha. Ou melhor, que tive que escolher assim, pois era preciso sobreviver. Sobrevivência sempre está relacionada à crueldade. e crueldade não é um mal que se faz aos outros. Cruel é aquele que corta na própria carne e provavelmente Artaud já disse algo parecido e melhor. O pensar nas crueldades que cometemos, que precisamos e escolhemos cometer é um sintoma, não de uma doença. é índice de tudo o que apetece e principalmente de todas as inapetências. De tudo que grita, que luta, que quer viver. Por isso é realidade palpável,

quinta-feira, 21 de maio de 2015

Na verdade, não.
Nem um mar de serotonina seria suficiente para tanto amargo na boca e tanto aperto na garganta. Tanto vazio.

terça-feira, 19 de maio de 2015

( sentimentos, pós-ducha, sob efeitos químicos de 40 minutos de corrida na praia):

E se for simples manter-se aberto
ante um mundo desprovido de sentido.
Algo simples e denso. Cozinhar, sorrir, transar. Correr. Ver o mar.
Manter-se aberto e contente.
Por que  a vida termina mal, e o mundo é com certeza horroroso, e todos os trabalhos são fontes de uma grande insatisfação.  Todavia, igualmente é certo que todo fim e finalidade podem ser adiados, aliviados, repensados, reinterpretados, ultrapassados, gozados.
Somente a última respiração é uma solução e um problema insolúvel. e justamente essa é a única coisa que vale a pena tentar entender.