domingo, 13 de setembro de 2015

_ Entre o dentro e o fora há uma afinação, que nesses tempos soa como qualquer música do The Smiths: nem feliz nem triste, mas igualmente sem importância. Como estrato de tempo, sem pensá-lo epistemologicamente porque é inútil, mas existencialmente - como deve ser-, é vigília e é espera. O tal "atento e forte" da música que a  gente gosta tanto. Mas esse estado dificilmente se traduz como temperatura: não é morno, sem ser quente ou frio. Em termos de espaço, diria que é aperto mas ainda não desconforto. Apenas pressentimento.

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

E se eu somente mentisse para mim mesmo, como forma de me preencher de alguma coisa? Como eu poderia saber? Na falta de uma bússola, na falta de um farol, na falta de um guia, como distinguir entre o que somos e o que mentimos? E como saber se de fato isso importa? E minha sensibilidade, e o que eu deveria de ser? E se eu não der pra nada a não ser esse nada mesmo que já dei?
O que importa é a alta do dólar e os cortes na educação e no que mais vier.
Importa que num céu escuro e num mar revolto, seria melhor ter mais que essa coisinha em que derivo.

sábado, 22 de agosto de 2015

O que desespera não é a inexistência de um porto seguro, do local tributável e legalizado, da certeza do dia 30. Tampouco é a condição precária, o vínculo leve, a falta de móveis, e de cachorros. Essas faltas e dificuldades são índices e entendê-los como algo além disso seria uma grosseria ou uma ilusão.

(A possibilidade de sucumbir a elas - outro nome da felicidade -, é qualquer coisa que me foi tirada.)

O que tira o sono todos os dias é o excesso de vontades que se materializa como seu exato oposto: a incapacidade de colocar a minha vontade como gerente da minha própria vida. é querer tanto e tantas coisas, fazer tudo por elas e ao mesmo tempo não extrair daí nenhuma satisfação a não ser ter tudo e não ter nada.
E isso não chega a satisfazer. sem dúvida é um gozo, mas também é uma deriva, um desterro.

Sem acender a luz, leio Pascal,  que me diz, com a voz trêmula, que a miséria faz par com a grandeza e  se projetam no claro-escuro do mundo, lá mesmo onde a vontade não tem e nunca teve nenhum controle.




quinta-feira, 20 de agosto de 2015

tarefas

fazer as perguntas cortantes
assumir as verdades amargas
resignar-se ao pouco, ao menor.
aceitar não ter valor, não ser mais que um estrago, uma decepção.

agosto é o mês da poda.

terça-feira, 18 de agosto de 2015

Fardo
ou prato do dia:
vida impura e mutilada alternada a desafogos fragmentários e intermitentes.
Enjoy!

domingo, 19 de julho de 2015

em mim, esterco. 
podridão. 
dialética. 

quarta-feira, 8 de julho de 2015

Cabeça em Belo Horizonte, coração em Paris, pés no Rio de Janeiro.
Coração no Rio de Janeiro, pés em Belo Horizonte, Cabeça em Paris.
um pé em Paris, outro em Belo horizonte, cabeça e coração no Rio de Janeiro.
no fundo, não importa a cidade:
pés na cabeça e o coração na boca.

Apostar em tudo não acaba por equivaler a não saber querer nada?

Não ser senão em deriva.

sexta-feira, 3 de julho de 2015

cheguei do nada, ontem. sem nada, nem perguntas,nem sonhos, nem promessas. Bolsos vazios, cigarro na boca, cabeça cheia, olhos ficcionais. Coração inflamado, pés doídos. Unhas feitas. Não tenho nada, nem mesmo a passagem. Sem nome, sem família. Sem posse, sem terras. Horizonte nu, nó na garganta.
MAS
deito-me e  faço (de) você o umbigo do diverso.


sábado, 13 de junho de 2015

Ninguém vê. Entravada numa rua que nunca desiste de fugir da cidade. Porque  liberdade sempre foi. Nunca é.  Aqueles dois cubinhos de açúcar que derretem no café. certeza de partir. gozo da não definição, do transitório. do passageiro. alegria leve. E me agarro na brisa pois os ventos fortes ainda virão.

quarta-feira, 3 de junho de 2015

Das vezes em que fui deliberadamente cruel, gosto de pensar que não tive escolha. Ou melhor, que tive que escolher assim, pois era preciso sobreviver. Sobrevivência sempre está relacionada à crueldade. e crueldade não é um mal que se faz aos outros. Cruel é aquele que corta na própria carne e provavelmente Artaud já disse algo parecido e melhor. O pensar nas crueldades que cometemos, que precisamos e escolhemos cometer é um sintoma, não de uma doença. é índice de tudo o que apetece e principalmente de todas as inapetências. De tudo que grita, que luta, que quer viver. Por isso é realidade palpável,